O Campo das Almas Perdidas

“O campo das Almas Perdidas não guardava vestígios visíveis da batalha que um dia culminara na morte de Edrien. Ainda assim, tudo nele permanecia como se a guerra não tivesse terminado, mas tivesse apenas sido suspensa no instante exato em que o Arquiduque fora traído.

Não havia sulcos na terra, nem marcas de lâmina, nem ossos expostos que denunciassem a violência que ali tivera lugar e, no entanto, o espaço sustentava uma densidade contínua, como se cada fragmento daquele lugar conservasse uma memória que nunca chegara a desaparecer.

Ali não se chegava. Ficava-se.

Preso. Entre uma dimensão e outra.

Entre a vida e a morte.

Anne caminhava pelo campo com a sensação inquietante de que o próprio silêncio observava cada passo seu. Pequenas luzes surgiam lentamente entre a névoa baixa, primeiro indistintas, depois humanas. Crianças. Mulheres. Soldados. Almas arrancadas ao mundo demasiado cedo. Algumas ainda carregavam o medo nos olhos. Outras procuravam desesperadamente alguém que já não podiam tocar.

Ao longe, uma mulher caiu de joelhos entre a erva prateada, apertando os braços vazios contra o peito como se ainda embalasse uma criança invisível. A voz dela atravessou o campo inteiro:

— Onde está ela? Onde está a minha filha?

E foi então que uma pequena luz surgiu da névoa. Tremia levemente, aproximando-se devagar até parar diante dela.

— Mamã… já não tenho frio.

Anne sentiu o coração apertar-se violentamente. Porque naquele lugar não existiam reis, títulos ou guerras. Apenas almas quebradas a tentar encontrar paz depois da crueldade dos homens.

E no centro daquele silêncio permanecia Edrien. Não como rei dos mortos. Não como guerreiro. Mas como guardião das almas perdidas que chegavam ao campo carregando medo, culpa e dor.

Porque algumas histórias não terminam com a morte.

Algumas apenas começam depois dela.”

🖤 Anne e a Flecha de Fogo
A continuação da saga Anne e do universo de Montclaire.

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M. V. Patrice

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