UMA PRIMEIRA ENTRADA EM MONTCLAIRE

Lê o início
da saga Anne.

Um excerto de Anne e o Eco das Almas Perdidas, de M. V. Patrice.

Abertura do Capítulo I — O Peso da Cruz. Texto em português.

ANNE E O ECO DAS ALMAS PERDIDAS

Capítulo I – O Peso da Cruz

Ouviu o galo cantar lá fora, rasgando o sono profundo em que se encontrava, como uma faca afiada. Pôs-se a pé, sabendo que o dia tinha começado. Já devia estar na ala da Senhora há muito tempo, pelo que era necessário aprontar-se rapidamente. Anne sabia bem que cada minuto de atraso lhe valeria novas reprimendas por fazer aguardar a sua Senhora.

Colocou os pés no chão, saindo da sua pequena e tosca cama e notou que a terra estava húmida. Aliás, todo o espaço era húmido. Experimentou uma sensação pegajosa na ponta dos pés, percebendo que a lama se começara a formar no chão do quarto. Olhou para cima e reparou que a palha do telhado estava cada vez mais deteriorada, permitindo que a chuva miúda inundasse o casebre. Maldisse mais uma vez a pobre ideia do seu pai, que não a queria nos quartos das aias. “Que se dane a honra!”, pensou Anne, cerrando os punhos. Olhou em redor para o minúsculo pardieiro onde a haviam confinado: paredes manchadas de bolor, cheiro a mofo e a humidade, e nada dos belos jardins que poderia ver todos os dias se a deixassem dormir no castelo! Logo ela, que jamais se deixaria desflorar por qualquer um.

Com um suspiro resignado, ajeitou os seus longos cabelos negros num coque impecavelmente estruturado, preso num gancho de osso que tilintou ao fixar-se. Colocou o corpete por cima da túnica de linho e pôs o longo vestido azul, deliciando-se com as mangas largas que tanto amava, esvoaçando a cada gesto seu. Passou rapidamente os olhos pela mesa, ainda posta com o que trouxe do castelo na noite anterior. Um pão de centeio bolorento, meia cerveja e uma mão cheia de nada. Preferiu não comer. Enfiou os pés nos botins e precipitou-se a correr pelo campo fora, em direção ao que já adivinhava ser o seu castigo – a esta hora, com o sol já demasiado alto, a Senhora já estaria no ritual do levante.

Enquanto sentia o vento beijar-lhe a face, presenteada pelo aroma da erva molhada, avistou os lacaios no portão do castelo, visivelmente consternados pela presença do Padre. Aproximou-se, desacelerando o passo, enquanto o chilrear dos melros compunham a melodia da manhã. Cumprimentou:

– Bons dias, meus senhores! A bênção, Senhor Padre! – exclamou, muito ofegante.

– Deus t’abençoe! Então, mas tu não sabes que quem madruga, Deus ajuda, Anne?

O olhar do Sacerdote era um misto de ternura com repreensão. Desde que o Senhor Mills deixara aquela pobre alma ao serviço da Senhora do Castelo, Alfric não antevira senão maus presságios. Onde já se viu, uma moça em idade casadoira, servir como aia fora de um castelo? Mal a avistou, tão nova, de trouxa ao ombro, soubera prontamente que a devia proteger da mente perversa dos homens. Achava que se dormisse no castelo, a probabilidade de ser corrompida era muito maior e convenceu o Senhor do castelo a ceder um pequeno casebre abandonado para que a moça pudesse ficar resguardada da malícia. Conseguira esse feito e fizera dela uma aia diferente das outras. Sinal divino de que os tempos estavam a mudar. “Ah, sim…o mundo está a mudar”, pensou. Passou a mão pelas barbas brancas enquanto encarava Anne, correndo apressadamente pelos jardins do castelo. Por momentos, deixou os seus grandes olhos azuis demorarem-se nela com falsa ternura, deleitando-se com as curvas que o corpete evidenciava. Olhar não devia ser pecado, desde que não caísse em tentação. Afinal, Deus era perfeito, ele é que não.

O Padre Alfric era uma figura muito respeitada por toda a região. Alto demais para os padrões da época, atribuíam-lhe tamanha dimensão como algo divino. Nos sermões, era austero, nas confissões, podia ser brando. Nunca se sabia qual dos dois homens se teria diante. Nunca se sabia bem com o que se contava dele. A única coisa que se sabia era que se devia temor a Deus e aos homens da Igreja. Este, em particular, sabia usar o temor a seu favor. Próximo dos Senhores, manipulava-os para atingir os seus fins. Ortodoxo quando lhe convinha, herético quando lhe era útil, sabia sempre onde queria chegar. Ninguém sabia exatamente de onde viera este “santo”. Não se sabia se viera de família rica, educado para vestir o hábito ou se fora abandonado num mosteiro por uma mãe prostituta. Alguns ainda diziam que seria o terceiro filho de uma família nobre, empurrado para a Igreja, uma vez que não lhe cabia qualquer herança. O que se sabia é que usara a sua ambição para subir entre bispos e senhores, utilizando a sua língua venenosa para arrancar pecados, que usava habilmente como moeda de troca. Vestia-se sempre de um negro rasgado por uma pesada cruz dourada ao peito. As mulheres baixavam os olhos à sua passagem, pois sabiam que ora diria algo ternurento, ora olharia para sítios menos próprios. Os homens evitavam conversas, porque se alguma palavra fosse mal dita, poderia selar os seus destinos.

O Padre queria sempre mais. Não se contentava com qualquer coisa. E ainda assim, essa coisa qualquer não era suficiente. Planeava cuidadosamente o próximo passo… E enquanto pensava e não pensava naquilo que queria para o dia que se avizinhava, adentrou pelo Castelo, vagarosamente, para se preparar para a missa matinal da Senhora.

A HISTÓRIA CONTINUA

Continua com Anne.

Este excerto é apenas o início do primeiro volume. Descobre a sinopse e escolhe a tua edição para continuar a leitura.

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