Anne permanecia imóvel, como se o próprio tempo houvesse cessado em redor do seu corpo. Apenas dentro de si o mundo ardia — um nojo profundo percorria-lhe a pele, os ossos, o ventre. Sentia-se uma estátua de mármore, fria, paralisada, mas, no seu íntimo, estava mais viva do que nunca, mais consciente de cada gesto, de cada toque, de cada suspiro profano.
O vinho… sim, havia algo naquele vinho. Alguma erva, alguma poção vil que lhe tolhia os movimentos, mas não lhe roubara o sentir. O corpo recusava-se a responder, mas a alma gritava, presa entre o céu e o inferno.
Sentiu-o penetrar-lhe o corpo como se ela não passasse de uma égua no estábulo, tomada sem respeito, sem piedade. O peso dele sobre si era como o peso do pecado — opressor, sujo, impiedoso. Movia-se dentro dela com deleite doentio, murmurando palavras que se perdiam na sua dor.
Anne deixou que as lágrimas escorressem, quentes e silenciosas, marcando-lhe o rosto como gotas sagradas de um lamento sem eco. Os olhos, voltados para o teto, procuravam uma resposta. Mas Deus estava ausente.
E foi nesse silêncio que ela murmurou, sem voz:
— Porquê?
Porquê agora?
Porque me deixaste, Senhor?
E, no silêncio, apenas se ouviam os gemidos do Padre e o som seco da vergonha a enraizar-se no corpo de uma mulher que, naquele momento, soube que jamais seria a mesma.”
Legenda para acompanhar:
“Nem todos os monstros usam coroas.
Alguns escondem-se atrás da fé.
🖤 Anne — O Eco das Almas Perdidas
Dark Fantasy • Gothic Fantasy • Fantasia Sombria Medieval
Por M. V. Patrice


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